Erros, fracassos e enxaquecas

No ultimo post, falei que iria escrever sobre os Maasais, mas vou deixar pro próximo porque hoje senti vontade de contar um pouco sobre o evento #FailFaire Nairobi – Mishaps. Mistakes. Migraines que aconteceu ontem aqui em Nairobi e os aprendizados que venho tendo em relação a fracassos. 

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A ideia do evento é reunir pessoas pra contarem verdadeiramente seus ‘cases de cagadas’ profissionais e como serviram de aprendizado pros próximos passos e fazer pensar por que a gente usa apenas benchmarks como fonte de inspiração.

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Na entrada, o carimbo “truth”. 

Falhar faz parte do processo de inovação e por aqui existe uma cultura de valorizar esses erros como grandes aliados. Sei que a gente sempre ouve sobre isso, como aprender com os fracassos e blábláblá, mas a verdade é que isso não faz mesmo parte do que a gente se orgulha em compartilhar. Pra isso, é preciso coragem. Tá aí o 7×1 provando o quanto um grande fracasso pode ser vergonhoso, doloroso, imperdoável. 10461621_686815981367016_12362458263069603_n

O evento  aconteceu no iHub, um centro de Inovação aqui em Nairobi organizado pelo Amani Institute (minha escola) e o Nendo, uma empresa especializada em tendências de social media no Kenya. Apesar de ter juntado muita gente interessada em Inovação Social, os 8 palestrantes eram de áreas diversas: artistas, ONGS, corporações , ativistas. Entre eles, Sanergy (já citada por aqui), Microsoft, Tatua Kenya, Sarakasi, CISP, IRC, Sitawa Namwalie, Ogutu Muraya

“You know a society doesn’t accept failure  when you freak out about preparing a presentation about failure”. Ogutu Muraya, escritor de teatro

Fomos incentivados a pensar qual a nossa percepção sobre os nossos próprios erros, o que isso significa no nosso trabalho e como vamos lidar com futuros fracassos. 

“I learned to own my failures too. Just like success is mine, failure is mine”. Sitawa Namwalie, poeta

No campo da Inovação Social, um dos meus maiores aprendizados, foi um caso que trabalhou em cima de hipóteses sobre a realidade do campo. O que parecia uma boa solução, virou uma bola de neve. Muitas vezes, um jeito simples de resolver alguma coisa, pode desencadear uma série de outros problemas sociais, afinal tudo é sistêmico nesse universo. É exatamente o caso do projeto de Karamoja que estou trabalhando na Saferworld. Qualquer “peça mexida” sem extrema cautela pode causar um efeito dominó e afetar todo sistema. Sinto medo, mas com esse mesmo medo, me sinto viva. 

Como já falei antes, uma das propostas do meu curso é trabalhar coragem e fazer a gente enfrentar nossos “demonios”, aquelas vozes desencorajadoras que ouvimos sempre que sentimos vontade fazer algo diferente. Todo dia somos obrigados a fazer algo que dê medo, algo que nos coloque numa posição de risco. Tenho tentado, inclusive esse blog é um exemplo disso, uma forma de me expor e ficar vulnerável. De dar chance pro erro e fracasso. Comecei a perceber que depois de um tempo esse sentimento se transforma e o medo de errar vira um fardo bem menos pesado se você simplesmente fizer. É como mergulhar na água gelada. Aqueles segundos entre a decisão de fazer e de não fazer…o momento de ação é quase mágico e no fim você acaba adorando.

Depois da coragem de se expor, vem a pior parte: as críticas. No Amani Insitute trabalhamos com a abordagem da professora Bené Brown, da University of Houston Graduate College of Social Work, que passou os últimos 12 anos estudando vulnerabilidade, coragem e vergonha. 

“Vulnerability sounds like truth and feels like courage. Truth and courage aren’t always comfortable, but they’re never weakness”. Bené Brown

Ela fala sobre como ao invés de recusar críticas (ou se afundar nelas), podemos aprender a “reservar um lugar” para os críticos  na nossa platéia. Afinal, todo mundo sempre tem uma opinião sobre tudo e não é diferente com o que você apresenta pro mundo.

Screen Shot 2014-07-18 at 12.31.49 PMVale a pena ver essa apresentação que ela fez para o 99u.

Aproveito então o aniversário do Mandela hoje, pra terminar esse post com um de seus lindos ensinamentos:

Screen Shot 2014-07-18 at 9.29.29 AM

 Asanté!

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Nairobi e Inovação Social

Jambo amigos.

Antes de começar a contar sobre o curso, acho fundamental falar que Nairobi é hoje um dos mais importantes pólos de empreendedorismo social no mundo. O próprio bairro que estamos morando, estudando e trabalhando é um bairro que abriga a maior parte das iniciativas do terceiro setor. 

Todo mundo fala sobre como a cidade evoluiu nos últimos anos e o que mais me chamou atenção aqui é o contraste entre a cultura de inovação e a falta de estrutura, convivendo em perfeita naturalidade. Você anda numa rua de lama e passa por um Centro de Inovação, por exemplo.

É interessante também ver que o empreendedorismo acontece de um jeito muito orgânico, faz parte da cultura. Andando na rua você vê vários vendedores informais dos mais diversos produtos: frutas, flores, móveis, artesanato…Essa semana no curso, tivemos um módulo de 3 dias chamado Growth in Social Innovation e recebemos um diretor da Ashoka*, que contou que 90% dos trabalhadores no Kenya são empreendedores e apenas 10% são empregados. É um empreendedorismo baseado muito mais na necessidade do que em oportunidades. Isso tem me feito pensar muito sobre o conceito de oportunidade.

Também recebemos essa semana o fantástico Meno Van Dijk, co-fundador da Thnk, uma escola de Amsterdan de Liderança Criativa. Entre muitas coisas legais, ele falou sobre a diferença entre ‘challenges’ e ‘opportunities’.  No campo da Inovação Social pelo menos, é fácil perceber que não há muita clareza sobre esses dois conceitos. Até porque muito da “nobreza” da área vem de focar nos desafios e problemas, quando na verdade poderíamos estar procurando as forças que já existem na situação e usa-las pra evoluir os contextos.

“That’s the problem of being overwhelmed by the challenges. Challenges doesn’t lead to opportunity, they are very different”.   

Meno Van Dijk

  

Nesse módulo do curso nos juntamos aos outros 25 estudantes de MBA, que já estavam aqui e visitamos o Research Lab da IBM. Ele se propõe a desenvolver soluções nas áreas: saúde, energia renovável, education e wasting management, utilizando tecnologia, mais especificamente a coleta de dados (big data), como ferramenta para desenvolver serviços que tragam evoluções sociais. Já tinha ouvido falar desse projeto, que acontece desse jeito apenas em Nairobi (como falei, o hub da Inovação Social no mundo). Apesar de ser uma proposta muito interessante, esse foi um exemplo perfeito da confusão entre esse dois conceitos. O Meno ajudou toda classe a refletir sobre isso e discutimos em grupo como isso se aplicaria nos projetos de cada aluno. 

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O lab também trouxe a perspectiva sobre uma tendência que já está acontecendo no universo da inovação social: uma elitizacao dos pensadores e desenvolvedores de soluções.  Todos os participantes do programa eram PHD em alguma coisa e com histórico acadêmico e profissional tão idealizados que jamais um “ïnovador por necessidade” poderia alcançar. Recebemos um Diretor da Acumen**, que falou sobre essa tendência e como isso afeta as relações dos moradores locais. Eles chamam de isso Gentrification. Não há uma tradução em português, mas se trata do fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios. Há uma valorização da região mas que afeta a população de baixa renda local, pois há um aumento de custos de bens e serviços, dificultando a permanência de antigos moradores com renda insuficiente pra se manterem no local. Algumas regiões de Nairobi estão começando a sentir esse impacto. O meu bairro é um exemplo disso.

“Nairobi becomes a hub for social enterpreeneurs and a hub for new ideas. But isn’t this affecting locals?”. Simon Stumpf

Além disso, começa também a se estabelecer globalmente um “merge” entre poder público, iniciativas privadas e cidadãos que passam a desenvolver suas próprias ideias seja por oportunidade ou necessidade. No Brasil, mais do que nunca, estamos vendo isso acontecer. Projetos como o Meu Rio, Conexão Cultural, Coletivo Rua, entre outros, trazem um pouco dessa iniciativa do cidadão se aliando ao poder publico e até privado para realizar mudanças de impacto social.

Entre reflexões como essas e apenas o início de muuuitas leituras, comecei também a trabalhar na Safer World, que é uma organização internacional independente que trabalha com resolução de conflitos e redução de violência. Vamos trabalhar em um projeto de desarmamento e resolução de conflito em Karamoja, fronteira de Uganda e o Kenya. Ainda não tenho muito pra contar sobre isso, pois ainda estou tentando entender e me aprofundar no assunto.

Pra não dizer que estive totalmente ausente da Copa e do futebol, assistimos o jogo com com alguns alunos do MBA que moram no nosso condomínio e até fizemos um jantar indiano pra comemorar a primeira semana em Nairobi. 

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Até o próximo post. Asante!

*Ashoka é uma organização global (uma das maiores) que identifica e investe em líderes/empreendedores sociais com capacidade de gerar transformações.

**Acumen é uma organizacão sem fins lucrativos que levanta fundos pra investir em ideias, líderes e empresas que geram impacto social.