Delícias do Kenya

Uma das coisas que mais gosto no Kenya é a cultura do chá. O país é o maior produtor de chá na Africa e o maior exportador de chá preto do mundo. Além do preto, eles produzem chá verde, “amarelos” e chá branco. É realmente um orgulho nacional. 

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O chá foi introduzido no Kenya em 1903 por G.W.L. Canina e em 1930, o plantio comercial começou. 

A agricultura é o segundo maior contribuinte do PIB do país (o primeiro é serviços) e além do chá, produtos hortícolas e café complementam esse dados. Aliás, o café também é sensacional! Especialmente o que vem da Etiópia (que fica bem em cima do Kenya), lá o café é o principal contribuinte. 

O chá daqui é cultivado sem agrotóxicos porque tem uma defesa natural no ambiente contra pragas e infestações.

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Existe até um  Conselho de Chá do Kenya que trabalha pela sustentabilidade da indústria. 

Eu tenho tomado umas três xícaras de chá por dia, vou variando os sabores, feliz da vida. 

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Companheiros do dia a dia 

O mais tradicional nos estabelecimentos é o “white brewed tea” que na verdade é o chá preto, misturado com leite (por isso o “white”) com tea masala (o temperinho incrível de especiarias). 

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As marcas mais famosas são: Kericho Gold Tea  e a Safari Pure Tea, mas opção é o que não falta. Tem também uma que chama Aroma (sem site) que vem com um mini-cobertorzinho Maasai, a principal tribo semi-nômade do Kenya (os maasai blankets são super comuns por aqui, você encontra em todo lugar). 

Amo tanto essa coisa toda do chá que até estou pensando em abrir uma casa de chás quenianos no Brasil com impacto no income dos produtores daqui, hehehe. Procuro sócios, quem se habilita? 

Agora vou tomar o meu chá da tarde porque aqui já passou das 17h. 

Tim tim!

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Soluções inspiradoras

Imagine que você adora cozinhar e descobrir receitas novas. De repente, você vai parar num lugar com fantásticos cozinheiros de todo o mundo: Ferran Adrià, Atala, Jamie Oliver, Ramsay,  Bourdain, Nigella…Todos estão abertos, dividindo seus truques e melhores ideias. Quando algum deles cria algo ótimo, só inspira o outro a criar algo ainda melhor. 

É assim que eu me sinto aqui em Nairobi: incrivelmente inspirada por pessoas e projetos admiráveis exatamente sobre o tema que eu queria aprender. Fico me perguntando se é mais fácil querer realizar mudanças quando estamos expostos aos problemas. Afinal, dificilmente você cruza com algo por aqui que não precise de reparos, de reformas ou novas soluções. Novamente a ideia de necessidade X oportunidade vem me fazendo pensar.  Em São Paulo, por exemplo, temos a segregação do que funciona e o que não funciona com perfeita clareza e normalmente acessamos o que funciona. 

São tanto exemplos, eventos acontecendo e soluções sendo implementadas em Nairobi que decidi dividir algumas ideias dentro de um dos temas que mais tem me interessado e é gigante por aqui: a falta de saneamento básico. 

A Sanergy é uma organização desenvolvida pelo MIT, que criou uma rede de banheiros químicos em que os resíduos sólidos são coletados e enviados para agricultores locais usarem como energia/fertilizante. 

Vale a pena entender mais aqui: 

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A ideia está acontecendo ainda apenas em Nairobi como um projeto piloto (a ser escalado para o mundo todo), chamado Fresh Life, mantendo os banheiros limpos em Kibera, a maior favela de Nairobi, com aproximadamente 1 milhão de pessoas. A falta de acesso aos serviços de saneamento básico trazem inúmeros problemas sociais nas favelas. Um deles é tornar as mulheres e meninas mais vulneráveis ​​à violência sexual. Como não há banheiros nas casas, as mulheres precisam encontrar uma solução fora. E a solução normalmente consiste num buraco no chão, compartilhado por uma dúzia de outras famílias, com um cheiro insuportável, cheio de resíduos pelo chão que espalham doenças dos mais diversos tipos. Não é preciso dizer que produtos de limpeza, higiene pessoal, papel higiênico ou água para lavar as mãos estão totalmente fora de questão.

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“I joined the Fresh Life movement to save lives in Mukuru. I never knew poor sanitation was a big deal until my friend’s son died from diarrhea.” – Alex Wekesa, Fresh Life operator at Mukuru Kwa Ruben

Antes disso, a própria comunidade criou sua própria solução em busca de privacidade e conveniência: eles optavam por usar sacos de plástico e, em seguida, jogá-los o mais longe possível de suas casas: um fenômeno conhecido como “flying toilets.

Olhando pra este problema, a Peepoo surgiu com uma ideia de “sanitização pessoal” em Kibera fornecendo um saquinho totalmente biodegradável que impede que os resíduos contaminem a área. Após o uso, Peepoo se transforma em um valioso fertilizante que é coletado nas favelas e fornecido a produtores locais de alimento (aumentando também a segurança alimentar da população). 

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Fiquei particularmente encantada com um programa que eles tem pra escolas em Kibera  que inclui mais de 60 escolas com mais de 10 000 crianças. O objetivo é ampliar para 100 000 crianças em 2016. 

No mundo todo, 272 milhões de crianças em favelas faltam as aulas em função de doenças como diarréia, anemia e outras doenças relacionadas a falta de saneamento básico e condições de higiene. 

Além disso, as meninas adolescentes faltam as aulas durante o período menstrual pela falta de privacidade e condições de higiene que há nas latrinas (os buracos no chão) das escolas. 

Nesse sentido, a Peepoo tem dado não apenas efeitos positivos sobre a saúde e segurança das crianças, mas também sobre a qualidade das escolas, já que a falta de saneamento é tão intensa que afeta brutalmente o sistema de educação.

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”My teachers used to leave their job because the school was messy. Now with Peepoo it is safe and clean and they stay, and I can secure the educational level of the school.”

Mary Iminza Lihanda, Headmaster, Little Steps School in Kibera

Tem como não achar isso o máximo? 🙂

Propósito é viver as perguntas

Há quase duas semanas, comecei a trabalhar na Saferworld, uma organização inglesa internacional que atua em zonas de conflitos e violência. Estou  fazendo parte de um time que busca uma estratégia de paz na região de Karamoja, que é composta por 5 distritos: Abim, Kaabong, Kotido, Moroto e Nakapiripirit. Essa região é fronteira entre Kenya e Uganda. 

Desde que comecei, leio calhamaços de papéis e pdfs. É impressionante a quantidade de informação e estudo que precisa se ter pra conseguir entender o que acontece numa situação assim. Falo isso, ainda com absoluta certeza de que meu aprendizado será superficial independente do quanto eu me esforce. Pessoas que trabalham com isso normalmente são PHDs com anos de experiência na região, um vasto e longo caminho percorrido em função daquele ideal. Além das infinitas leituras, tem todo o intenso trabalho de campo e vulnerabilidade de se expor na zona de risco (que provavelmente vou sentir apenas um pequeno gostinho durante esses dois meses). Eu não acho que vá seguir por esse caminho no futuro, mas fico feliz de estar fazendo algo em que veja um propósito.

Eu sempre me questionei muito sobre o fato de fazer algo que não tivesse um sentido. Nos últimos anos, esse sentimento cresceu assustadoramente e cada vez mais eu sinto que não há como voltar pra um trabalho que não tenha significado. Eu ainda não sei como vou fazer isso, mas essa é a minha busca. Não sei se vou encontrar respostas, mas estou feliz de me permitir viver as perguntas. Feliz de me expor ao desconhecido, de me expor aqui nesse blog, de ir ao encontro ao que parece que é certo e me faz dormir tranquila.

“Don’t ask what the world needs, ask what makes you become alive. What the world needs is more people who feel alive”. – Filme Who Cares?

Antes de eu chegar aqui, um amigo me disse que eu seria “capturada” pela África. Cada dia que passa eu entendo mais sobre o que ele estava querendo dizer. Tem algo nesse lugar que me faz sentir como se todo dia fosse inteiramente vivido. Posso dizer que estou passando por um dos períodos mais presentes da minha vida. Presente no sentido de viver o agora, estar ouvindo alguém de verdade, aprendendo, conhecendo algo de corpo e alma. Presente também porque essa experiência tem um imenso significado no meu coração e eu sinto que estou recebendo muito. A falta de algumas coisas tem me feito perceber o quanto não preciso delas. É impressionante como tudo pode ser bem mais simples. Simplicidade em tudo e todos.

Eu sinto que estou resignificando muitas coisas. Talvez esse seja o começo do encontro do meu propósito. Fico muito feliz de todos os dias  receber algum recado, alguma mensagem de família e amigos me encorajando a fazer o que meu coração mandar. Nem que seja continuar vivendo em Nairobi por mais um tempo. Quem sabe?

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“Have patience with everything that remains unsolved in your heart. Try to love the questions themselves, like locked rooms and like books written in a foreign language. Do not now look for the answers. They cannot now be given to you because you could not live them. It is a question of experiencing everything. At present you need to live the question. Perhaps you will gradually, without even noticing it, find yourself experiencing the answer, some distant day.” ― Rainer Maria Rilke, Letters to a Young Poet

Natureza e outros pensamentos

Desde que cheguei estava louca pra ver um pouco da natureza da África. Já estou me sentindo bastante integrada com a natureza humana, a forma com que as pessoas lidam com tudo por aqui, mas bicho e paisagem estavam demorando.

Falando em natureza das pessoas, cada vez mais sinto uma familiaridade com o “jeitinho brasileiro” e toda aquela coisa de tirar vantagem, especialmente de turista. Um ótimo exercício pra aprender a barganhar de verdade e ficar esperto com qualquer tipo de “malandragem”. A cultura de colônia explorada pelos ingleses até 1963 (!!!) se reflete hoje nos valores e atitudes. Tirando isso, é uma natureza de pessoas extremamente simples e doces. Essa simplicidade é uma das coisas que mais me encanta por aqui. Ainda vou fazer um post só sobre as pessoas maravilhosas que tenho conhecido. 

E falando em natureza de verdade e minha vontade de sair pisando em terras de safáris, fizemos alguns passeios nesse fim de semana que já deram lindas fotos e boas histórias. 

No sábado fomos conhecer o National Park de Nairobi, localizado há uns 8km de Nairobi. O National Park é um verdadeiro ecossistema de savana com diferentes tipos de vegetação, planícies abertas de grama e acácias. Entre as mais de 400 espécies que habitam o parque, vimos girafas, leões, rinocerontes, leopardos, chita, hiena, búfalos, girafas, zebras e “Pumbas”. É possível fazer os passeios de carro ou a pé. Nós decidimos ir a pé. 

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Lá visitamos o orfanato de elefantes, um projeto muito lindo que resgata filhotes perdidos nas savanas devido à caça de suas mães pra retirar o marfim. Eu vi algumas imagens sobre como isso é feito e realmente é realmente muito horrível.  Os organizadores do projeto pedem encarecidamente pra que as pessoas não comprem nada de marfim.

2014-01-10 11.53.14 Bebês orfãos ainda sem marfim.

Ainda no National Park também fomos ver as simpáticas interativas girafas. Estou apaixonada, quero levar uma pra casa!

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 Girafas e indianos ❤

No domingo, fomos os 5 amigos para um lugar chamado Hell’s Gate. Também é um National Park, que fica ao sul do Lago Naivasha, noroeste de Nairobi. Lá tem todo tipo de animal também e uma atração ~interessante~ são os babuínos, que roubam comida. Um grupo de meninas que estavam lá foi atacado, eles são bem agressivos. 

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Saila da Finlândia, Tony da Noruega, Megan dos EUA e Mercy do Kenya.

Hell’s Gate é uma espécie de caverna com pedras que tem lava dentro. A água que escorre de dentro é agua fervente e durante a época de chuva ninguém pode entrar. Sete pessoas já morreram afogadas sem conseguir sair de lá. Hoje em dia, por todo caminho você encontra cordas e saídas de emergência. Pra chegar é preciso andar/pedalar 10km e depois escalar por 2km em uma florestinha. Lá dentro mesmo tem algumas partes que é preciso seguir no hiking e escalando pra conseguir se movimentar.

2014-01-11 16.41.25 Esse é o Devil’s bedroom. 

2014-01-11 16.40.58E essa é a Devil’s kitchen 🙂 

Decidimos dormir por lá pois segunda-feira é dia do nosso independent study e resolvemos estudar a geografia do Kenya, hehehe. Dormimos em um camping em Lake Naivasha todos juntos no mesmo chalé, com um típico “banheiro” queniano (acredite, vocês não querem ver fotos). Acho que o conceito de privacidade não existe por essas bandas.  A parte boa foi fazer tudo virar piada e aproveitar o lado bom da intimidade.

O único lugar que tinha aberto  pra comer era uma kibanda. Kibandas são tipo cabanas que vendem comida local (que se come com as mãos, sem talheres) a um preço muuuuuito acessível. A gente costuma almoçar nelas em Nairobi. Os funcionários de kibanda costumam ser parentes e nesse caso não foi diferente. Fomos recebidos por uma família que estava fazendo de tudo pra deixar nossa experiência confortável (como sempre ocorre em outras kibandas). Eu me sinto muito grata por ser sempre tão bem recebida e também de alguma forma, contribuir pelo menos o mínimo que eu posso enquanto estou aqui, comendo em kibandas ou comprando produtos de vendedores locais.  É impossível ir a um lugar assim e não pensar em como suas referências de mundo são apenas aquela realidade, sem perspectiva de mudança. Me sinto abençoada (e constrangida ao mesmo tempo) por poder fazer escolhas. Pra mim, é uma refeição que evoca sempre muitos sentimentos e pensamentos. 

2014-01-11 21.07.59Filha do dono da kibanda em Naivasha lavando nossas mãos com água e sabão antes de trazer a comida. 

No dia seguinte (segunda-feira) fomos fazer um passeio de barco no Lago Naivasha e visitamos uma ilha (que também é um National Park) chamada Crescent Island.  O filme Out of Africa foi gravado lá em 1985, inclusive, os produtores levaram algumas espécies que não existiam na época e passaram a habitar a ilha. Um lugar inesquecível com uma natureza melancólica e bichos que nem sabia que existiam. Me senti no filme Where the wild things are.

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Num canto da ilha mora um mzungu (mzungu é como eles chamam “pessoa branca”….eu ouço isso bastante andando na rua). Ele mora numa casa tipo encantada com girafas e cavalos no quintal. Tudo parecia um sonho nessa ilha, fiquei inebriada. Mas estou começando a entender que quando se trata de qualquer natureza aqui no Kenya, não tem como ser diferente. 

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Até o próximo post. Asante!

Sonhos grandes

Essa semana tivemos um módulo do curso sobre como escalar impacto com o incrível Kevin Starr, fundador da Mulago Foundation e professor da d.school de Stanford.

Escalar impacto, falando muito basicamente, seria fazer seu impacto social se multiplicar, atingindo o maior numero possível de pessoas.  

Desenhar impacto é bastante diferente de desenhar impacto com possibilidade de escala. A maior critica do Kevin era justamente a enorme quantidade de projetos sociais que focam apenas no impacto ao desenhar sua estratégia e não consideram escala desde o início.

“Most efforts to create impact aren’t really designed, and when they are, they’re often designed without scale in mind. That’s a huge opportunity lost”. Kevin Starr

De acordo com a metodologia chamada Design Iteration Format (DIF),  impacto está diretamente ligado a uma ou mais mudança(s) de comportamento. E pra isso é preciso criar um mapeamento dos comportamentos que terão que mudar. 

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Criamos então esse mapa de comportamentos (behaviour map) e passamos a implementar em nossos próprios projetos. Quem são as pessoas que precisamos convencer a fazer algo diferente e quais são essas etapas? Escolhemos então, um principal comportamento e focamos em como mudá-lo através de condições e incentivos.

O Kevin deu um exemplo de projeto de inovação social que visava diminuir a taxa de mortalidade de malária em algumas cidades no interior do Kenya e a ideia do cara era jogar redes de mosquitos de um avião. No “behaviour map” desse caso a maior mudança que ele teria que enfrentar era fazer as pessoas pegarem as redes e usarem em casa do jeito certo.

Só depois de entender esses passos e definir qual o comportamento mais desafiador a ser mudado é possível desenhar um modelo de impacto com escala. Escala que deve ser pensada no melhor “cost effective” possível. Quanto mais acessível, mas escalável será. Além disso, precisa ser simples e sistemática pra que você deixe ser feito por outras/qualquer pessoas.

Na segunda parte do módulo, aprendemos como mensurar esse crescimento. Cada negócio tem um jeito específico, mas vimos vários exemplos e aplicamos as possibilidades em nossos projetos. 

Pra mim, fez todo sentido. Acredito muito no “processo” do design como uma forma de construir modelos de negócios sustentáveis e agora, escaláveis. 

Aqui na Africa isso faz mais sentido ainda. Cada dia que passa, esse lugar me faz entender como cada pequena ação é capaz de gerar um profundo impacto na vida de alguém. E todos dias eu mesma sou impactada. Essas aulas me fizeram pensar sobre o poder da escala em um lugar assim, como pode realmente gerar uma mudança significativa, gigantesca.

Termino então com uma frase do meu querido Eduardo Lyra: “Entre sonhar pequeno e sonhar grande, sonhe grande porque dá o mesmo trabalho”.  

Asante sana.

Nairobi e Inovação Social

Jambo amigos.

Antes de começar a contar sobre o curso, acho fundamental falar que Nairobi é hoje um dos mais importantes pólos de empreendedorismo social no mundo. O próprio bairro que estamos morando, estudando e trabalhando é um bairro que abriga a maior parte das iniciativas do terceiro setor. 

Todo mundo fala sobre como a cidade evoluiu nos últimos anos e o que mais me chamou atenção aqui é o contraste entre a cultura de inovação e a falta de estrutura, convivendo em perfeita naturalidade. Você anda numa rua de lama e passa por um Centro de Inovação, por exemplo.

É interessante também ver que o empreendedorismo acontece de um jeito muito orgânico, faz parte da cultura. Andando na rua você vê vários vendedores informais dos mais diversos produtos: frutas, flores, móveis, artesanato…Essa semana no curso, tivemos um módulo de 3 dias chamado Growth in Social Innovation e recebemos um diretor da Ashoka*, que contou que 90% dos trabalhadores no Kenya são empreendedores e apenas 10% são empregados. É um empreendedorismo baseado muito mais na necessidade do que em oportunidades. Isso tem me feito pensar muito sobre o conceito de oportunidade.

Também recebemos essa semana o fantástico Meno Van Dijk, co-fundador da Thnk, uma escola de Amsterdan de Liderança Criativa. Entre muitas coisas legais, ele falou sobre a diferença entre ‘challenges’ e ‘opportunities’.  No campo da Inovação Social pelo menos, é fácil perceber que não há muita clareza sobre esses dois conceitos. Até porque muito da “nobreza” da área vem de focar nos desafios e problemas, quando na verdade poderíamos estar procurando as forças que já existem na situação e usa-las pra evoluir os contextos.

“That’s the problem of being overwhelmed by the challenges. Challenges doesn’t lead to opportunity, they are very different”.   

Meno Van Dijk

  

Nesse módulo do curso nos juntamos aos outros 25 estudantes de MBA, que já estavam aqui e visitamos o Research Lab da IBM. Ele se propõe a desenvolver soluções nas áreas: saúde, energia renovável, education e wasting management, utilizando tecnologia, mais especificamente a coleta de dados (big data), como ferramenta para desenvolver serviços que tragam evoluções sociais. Já tinha ouvido falar desse projeto, que acontece desse jeito apenas em Nairobi (como falei, o hub da Inovação Social no mundo). Apesar de ser uma proposta muito interessante, esse foi um exemplo perfeito da confusão entre esse dois conceitos. O Meno ajudou toda classe a refletir sobre isso e discutimos em grupo como isso se aplicaria nos projetos de cada aluno. 

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O lab também trouxe a perspectiva sobre uma tendência que já está acontecendo no universo da inovação social: uma elitizacao dos pensadores e desenvolvedores de soluções.  Todos os participantes do programa eram PHD em alguma coisa e com histórico acadêmico e profissional tão idealizados que jamais um “ïnovador por necessidade” poderia alcançar. Recebemos um Diretor da Acumen**, que falou sobre essa tendência e como isso afeta as relações dos moradores locais. Eles chamam de isso Gentrification. Não há uma tradução em português, mas se trata do fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios. Há uma valorização da região mas que afeta a população de baixa renda local, pois há um aumento de custos de bens e serviços, dificultando a permanência de antigos moradores com renda insuficiente pra se manterem no local. Algumas regiões de Nairobi estão começando a sentir esse impacto. O meu bairro é um exemplo disso.

“Nairobi becomes a hub for social enterpreeneurs and a hub for new ideas. But isn’t this affecting locals?”. Simon Stumpf

Além disso, começa também a se estabelecer globalmente um “merge” entre poder público, iniciativas privadas e cidadãos que passam a desenvolver suas próprias ideias seja por oportunidade ou necessidade. No Brasil, mais do que nunca, estamos vendo isso acontecer. Projetos como o Meu Rio, Conexão Cultural, Coletivo Rua, entre outros, trazem um pouco dessa iniciativa do cidadão se aliando ao poder publico e até privado para realizar mudanças de impacto social.

Entre reflexões como essas e apenas o início de muuuitas leituras, comecei também a trabalhar na Safer World, que é uma organização internacional independente que trabalha com resolução de conflitos e redução de violência. Vamos trabalhar em um projeto de desarmamento e resolução de conflito em Karamoja, fronteira de Uganda e o Kenya. Ainda não tenho muito pra contar sobre isso, pois ainda estou tentando entender e me aprofundar no assunto.

Pra não dizer que estive totalmente ausente da Copa e do futebol, assistimos o jogo com com alguns alunos do MBA que moram no nosso condomínio e até fizemos um jantar indiano pra comemorar a primeira semana em Nairobi. 

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Até o próximo post. Asante!

*Ashoka é uma organização global (uma das maiores) que identifica e investe em líderes/empreendedores sociais com capacidade de gerar transformações.

**Acumen é uma organizacão sem fins lucrativos que levanta fundos pra investir em ideias, líderes e empresas que geram impacto social.

Quando a segunda-feira não é rotina

Escrito dia 3 – Segunda-feira 9 de junho

Eu realmente não achei que fosse fazer desse blog um diário, mas a vontade que eu tenho de sair contando sobre as coisas que estou vivendo é grande. Provavelmente, com o curso começando de verdade, vai ser mais difícil de postar com frequência, mas a ideia é sempre colocar aqui o que aprendi de mais marcante. 

Meu dia começou com uma terrível sensação de que ainda deveria continuar dormindo. O fuso é de 6 horas pra frente. Fomos (sempre que falar no plural significa que sou eu e meus 4 companheiros de curso citados no primeiro post) encontrar a Gigi, Community Manager da Amani, para um city tour. 

A primeira impressão sobre o centro Nairobi é que o trânsito de paulista vai muito bem, obrigada. Aqui, o transito é caótico. Além da mão ser inglesa (eles foram colonizados pela Inglaterra, em breve conto mais sobre isso), há uma quantidade enorme do que eles chamam de Matatus. 

Matatu é o nome das minivans de transporte que andam como se não existissem leis. Li no livro Mochila Social do Alex Fiberg, que no passado elas eram todas grafitadas, decoradas e competiam para ver quem possuía o sistema de som mais poderoso. Mas infelizmente não é mais assim por conta de uma série de leis. Matatu, originalmente, vem do Swahili e significa algo como “3 shilings” (moeda local), pois era o preço da viagem no início. Hoje só restaram os sinais desgastados de antigos grafites, sistemas de som funcionando escondidos.  

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Começamos o dia visitando o Rail Nairobi Museum. Os trens foram o motivo por qual a cidade nasceu fazendo a ligação comercial entre Uganda e Mombaça (uma das principais praias daqui, também vou falar sobre isso nos próximos posts).

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Durante a aula de história com o adorável Kevin, simultaneamente respondendo perguntas sobre a situação da Copa no Brasil, comecei a me sentir muito mais tranquila e familiarizada.

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Não posso negar que cheguei a Nairobi totalmente na defensiva e um pouco assustada. Ouvi muitas histórias sobre os ataques e a situação de segurança como um todo, além dos roubos e o apelido “NaiRobbery”. Mas a verdade é que o Brasil não é tão diferente assim. 

Na seqüência fomos ao antigo Congresso no ponto zero da cidade, um dos pontos mais altos pra entender o mapa da cidade, além de ver bem de longe o Kilimanjaro.

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Lá, o Peter foi nosso guia. Provavelmente, uma das pessoas mais sorridentes que já conheci. Orgulhoso, ele mostrou “seu escritório”, zombou do nosso e depois de alguns minutos sabíamos tudo sobre cada ponto de Nairobi. 

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Ele até me ensinou algumas palavras em swahili:

Sawa sawa – ok, ok 

Uhuru – liberdade (tem uma praça bem famosa no centro com esse nome)

Karibu – Bem vindo / Karibu sana – muito bem vindo

Asante – obrigado (a mais usada atualmente!)

Sasa – e aí?

A tarde tivemos a introdução ao curso pra entender como tudo vai funcionar. Amanhã começamos um módulo de 3 dias chamado Growth in Social Innovation. No fim desse módulo, escreverei mais. 

Asante!