Asante Kenya

Chegou ao fim o Kenya. Nesta quarta-feira retornei ao Brasil querendo evitar despedidas. Registrar aqui no blog era registrar pra mim mesma o fim de uma fase que clichezisticamente mudou a minha forma de ver a vida.

O  Kenya me ensinou a ter um coração maior. Digo maior porque uma parte dele ainda está lá, atravessando o oceano. Está lá no orfanato das meninas com HIV abusadas pelos membros de suas próprias famílias. Na casas dos artesãos da favela de Kibera, escassa em infra-estrutura, mas rica em talento artístico e valores coletivos. No África Yoga Project, que me trouxe uma nova perspectiva sobre o poder do Yoga. Na Esther, vendedora de frutas, e tantos outros prestadores de serviço que sempre me agradeciam três vezes por ter feito uma compra. Nas viúvas das comunidades rurais do Kenya e na Roseline, que me ensinou que as nossas piores experiências de vida podem ser usadas pra transformar positivamente a vida de outras pessoas. Meu coração está lá em Zanzibar, o paraíso que me deu paz, descanso e plenitude. Na Vila Maasai, que me ensinou que a natureza dá tudo o que a gente precisa de verdade. E também no Maasai Mara, que me fez entender como sou apenas mais um fragmento de sua imensidão.

A cada momento doloroso no Kenya, uma coisa maravilhosa. E assim se foi minha dinâmica de dois meses, um vai e vem de causa e efeito. De viver cada sentimento da forma que eles merecem ser vividos. Isso inclui raiva, inconformismo e frustração. Mas que com a ajuda do Amani Institute, todos eles foram canalizados pra uma outra energia: a energia da mudança. Quantas vezes eu ouvi ali: se você quer mudar o mundo, comece mudando você mesmo.

“Muitas pessoas pequenas, em muitos lugares pequenos,  fazendo coisas pequenas, mudarão a face da terra”.

Provérbio africano

Posso dizer que avancei belas casas na terapia. Nesse encontro do que sou eu hoje e amanhã. Meu coração segue um pouco maior e mais humano, feliz e certa das coisas que eu não quero mais. O que quero já é outra historia, próximos capítulos. Tenho a vida toda pra eles. E esse blog também. Não quero dizer tchau. Quero contar esses capítulos. Como o Kenya vai influenciar essas próximas páginas. Como vou aplicar todos esses aprendizados no meu caminho daqui pra frente, no meu safari maisha.

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Ao Kenya eu agradeço por me dar tanto e pedir tão pouco. Por clarear meus valores, minhas crenças e a minha fé de que nada é impossível.

“No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor. Como resultado da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda, que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma, o poder, o gênio e a magia.” 

Goethe

Asante sana, Kenya, muito obrigada.

E até a breve volta!

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Modelo de negócio e vida

Nessas últimas semanas, tivemos um modelo do curso chamado “Creating and managing a social venture”, em que estudamos toda logística e estrutura financeira de um negócio social. Entre muitas coisas, tivemos que desenvolver vários Modelos de negócio. Pra quem não tem familiaridade com esse assunto, um modelo de negócio serve pra desenhar o racional por trás de uma empresa e ter clareza sobre como ela cria e entrega valor. Além disso, ajuda a entender coisas que precisam estar muito claras na cabeça de um empreendedor, mas que nem sempre estão. Por exemplo, através do Canvas (essa tela) você pode visualiza toda dinâmica da sua empresa: como você capta dinheiro, como você entrega valor pra pessoas além do produto/serviço, quais os canais de distribuição que você usa,  os custos que você tem.

Na Amani, seguimos o modelo do livro Business Model Generation. Existem outros como, por exemplo, o Lean Start Up  e o Blue Ocean Strategy, por exemplo. Temos esse livro em casa, mas confesso que apesar da linguagem super simples e didática, nunca ficou muito claro pra mim como fazer isso. 

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Esse video ajuda a entender melhor.

Bom, além da teoria das aulas e milhares tentativas de criar nossos próprios modelos, também fizemos um trabalho de consultoria do modelo de negócio de duas organizações. Um delas é a startup e-limo, que desenvolve conteúdo educativo para crianças de escolas públicas através de tablets. A outra é minha grande, gigante, enorme inspiração: a ONG Africa Yoga Project.  

O Africa Yoga Project é uma ONG que capacita professores de Yoga. Muitos deles, antes de ser professores, eram bandidos ou tinham relação com drogas. Inicialmente, o projeto nasceu para dar suporte a saúde física, mental e emocional à pessoas nas favelas do Kenya através do Yôga. Mas acabou virando um grande centro que forma e capacita instrutores, que normalmente não tinham emprego e vinham do crime. Seguiu crescendo pra outras formas de expressão artística e hoje é uma plataforma gigante com uma média de 200 mil pessoas impactadas.

Eu sempre considerei como modelo sustentável, um business que resultasse em impacto social. O que mais me inspirou no Africa Yoga Project, foi ver como eles fizeram o oposto: transformaram um projeto social num fantástico modelo de negócio. Eles tem diversas formas de captar recursos, como por exemplo, um fellowship de 2 semanas em que estudantes estrangeiros pagam cerca de 10 mil solares pra participar. Ou o programa de mentoria em que pessoas com determinados skills orientam um professor recém-formado via skype call semanais. As pessoas não só pagam pra ensinar como pagam pela formação do professor. Eles também cobram pelas aulas semanais (um preço super acessível). Entre outras formas de captação, o Modelo de negócio do AYP resignifica o conceito de ONG dependente apenas de doações. 

photoPaiige, co-fundadora do Africa Yoga Project explicando pra gente seu Modelo de negócio.

Outra coisa que me inspirou muito foi entender como os fundadores foram capazes de adaptar o Yoga pra aquela realidade. Eu nunca vi ou pratiquei Yoga com uma mentalidade coletiva, por exemplo. Sempre vi Yoga como um momento íntimo e reflexivo e o AYP realmente abriu minha cabeça. Lá, eles conseguem fazer de cada ásana,  um trabalho de equipe, cada vitória é comemorada e todo tipo de pessoa é incluída. Quando digo incluída, realmente estou me referindo à inclusão social. No Shine Center, onde rolam as aulas, você encontra professores e alunos com os mais diversos tipos de deficiência. Pessoas com deficiência auditiva, pessoas mudas, albinas, cegas, etc. Cada um encontra seu propósito e seu papel no mundo. Algumas mulheres cegas nascidas na favelas, por exemplo, se tornam massagistas. Eu fiz uma massagem de chorar no cantinho com uma senhora cega esses dias. Professores mudos também se comunicam perfeitamente nas aulas de yoga sem precisar dizer uma palavra.

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Cadeiras que iam pro lixo voltam à vida com as lindas kangas africanas. Feitas por crianças e pessoas com deficiência nos workshops de auto-expressão. 

Desde que cheguei aqui, tenho feito aulas em grupo com o professor Patrick e seu aprendiz, David. Ambos são professores capacitados pelo Africa Yoga Project. O Patrick fez a gente viver o Yoga muito além do Yoga. Durante a aula, ele faz a gente se questionar sobre padrões estabelecidos, quebras de paradigma.

“How you do anything, is how you do everything”. 

Patrick

Bem diferente das silenciosas e meditativas aulas de Yoga que já tive contato, posso dizer que ele me inspirou a ter coragem como um todo, não só no Yoga.

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Capacitado pelo AYP, Patrick (na foto à esquerda) foi nosso professor de Yoga nos últimos 2 mese e David (à direita) seu aprendiza. 

Muito mais que um belo Modelo de Negócio, o Africa Yoga Project trouxe uma nova perspectiva pra minha vida e pro meu futuro. Chegando ao fim do meu curso, posso dizer que fui extremamente feliz em conviver de perto com esse projeto e todas as suas maravilhas. Muita inspiração e respiração. 

Namasté!

A diferença entre cultura e abuso.

No último post, falei um pouco sobre os Maasais. Apesar de infinitamente diferente das nossas referências ocidentais e forma de viver, é muito claro pra mim que os Maasais têm costumes e tradições que fazem parte de sua cultura. E por isso, os respeito imensamente.

Ao mesmo tempo, tem uma coisa que acontece aqui na África que é embalada como cultura em alguns locais mas que na verdade é violação aos direitos humanos. Essa coisa se chama Widow Abuse.

Em muitas regiões, especialmente rurais, mulheres que perdem seus maridos viram vítimas de abuso mental, físico e sexual.

Essa roupagem de cultura é composta por rituais de “limpeza”, pois uma viúva passa a ser vista com ódio e desconfiança e é considerada um elemento de má sorte na comunidade. Esses rituais significam que elas precisam ter relações sexuais a força com outros homens, que muitas vezes tem HIV. 

Elas podem ser torturadas e atacadas (a ponto de assassinato) ou forçadas a cometer atos degradantes, como comer carne humana, fazendo sexo com o cadáver. 

Muitas vezes, elas são acusadas de assassinar seus maridos, já que são um símbolo de azar.

Elas têm sua herança, terras e pertences pessoais roubados. E podem ter seus filhos levados por sua próprias famílias, que as abandona. Muitas delas acabam tendo que recorrer a prostituição pra sobreviver.

Elas têm seu cabelo cortado, e são forçadas a usar preto para o resto da vida, para que todos a reconheçam como um “gato preto”, que se deve evitar contato. Ela não pode nunca mais se casar de novo e suas filhas podem ser fisicamente e sexualmente abusadas e exploradas.

Elas podem ser impedidas de participar de cerimônias importantes, como o casamento ou enterro de seus próprios filhos. Depois de passar por tudo isso, muitas viúvas cometem suicídio na tentativa de acabar com seu sofrimento.

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Pra mim, isso não é cultura, isso não é vida, isso não é certo.

A minha mãe é viúva. Mas poderia ser viúva aqui no Kenya, poderia ter que passar por tudo isso, além de enfrentar a perda. No Brasil, minha mãe está segura, é amada, respeitada e tem liberdade de ser e fazer o que desejar. E é isso que eu também desejo para todas as mulheres que perderem seus maridos na África. 

Roseline Orwa, minha amiga e grande fonte de inspiração, é ativista de viúvas aqui no Kenya. Em função de sua experiência como viúva, Roseline criou a Rona Foudantion que constrói casas, dá suporte psicológico, treinamento profissional em agricultura e serviços médicos para comunidades de viúvas e órfãos que tiveram suas mães afastadas ou mortas.

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Roseline, minha amiga widow activist, com uma história de vida que vai fazer você repensar a sua. 

Assim como eu, acredito que muitos que estão lendo, não sabiam dessas circunstâncias. Por isso, a Rona Foundation está iniciando um movimento de conscientização no mundo, pra que todos saibam e então possam escolher se querem esquecer ou se querem agir a favor da justiça e da dignidade de pessoas exploradas que não podem se defender sozinhas. O movimento #stopwidowabuseke está pressionado o governo para a criação de leis a favor das viúvas e sua segurança.

Para participar você só precisa tirar uma foto com a mensagem STOP WIDOW ABUSE IN KENYA @ronafoundation e compartilhar em suas redes sociais com a hashtag #stopwidowabuseke, tageando a Fanpage.

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Aliás, você também pode curtir a fanpage para que o movimento fique mais poderoso e a pressão do governo mais intensa. E claro, você também pode doar no site.

Participe, afinal, somos todos um.

A Vila Maasai

Enfim, os Maasais! Enrolei um pouco pra falar sobre eles, mas sem dúvida é uma das minhas descobertas preferidas aqui no Kenya. Os Maasais são tribos étnicas e semi-nômades que habitam áreas rurais no Kenya e no norte da Tanzânia. Semi-nômades porque quase todos são pastores de gado e vão se deslocando de acordo com o melhor pasto.

No mesmo fim de semana que fui à reserva do Maasai Mara tive a chance de visitar também uma Vila Maasai que mantém a maioria de suas tradições. Acredito que o fato de estar “aberta” à visitações afeta alguns costumes e intensifica as características de outros em função do apelo turístico… Mas independente disso a cultura Maasai faz parte da identidade do Kenya e eu não poderia deixar de conhecer pessoalmente.

Segundo o wikipedia, a população Maasai  chega a mais de 800 mil pessoas só no Kenya. Já rolaram algumas iniciativas do governo do Kenya e Tanzânia pra encorajar Maasais a abandonarem seus costumes e programas de incentivos à outras formas de viver mas Maasai que é Maasai, não abandona o posto.

Andando em Nairobi e em qualquer outro lugar no Kenya, você encontra um ou outro Maasai, enrolado em seus lindos Maasai blanquets. Eles se vestem com esses cobertores de cor vermelha. A  cor ajuda a liderar o pasto, mas as estampas variam com listras xadrez, preto, azul…..Eu já tenho dois, são lindos e super quentinhos.

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Lehaw, funcionário no nosso acampamento. Em volta de uma fogueira em plena lua cheia, ele contou histórias de sua tribo. Ele usa azul porque é Maasai da Tanzânia.

Outra forma de reconhecer um Maasai é cabeça raspada que faz parte do ritual de passagem de uma época da vida para outra. Por exemplo, ao chegar à idade de 3 “luas”, a criança tem a cabeça raspada com um tufo de cabelo, que se assemelha a um cocar simbolizando o seu “estado de graça”.

Pois bem, chegamos na Vila e fomos recebidos pelos homens, os anfitriões. Eles tem uma dança em que ficam numa roda e cada um por vez pula bem alto.

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No fim, quem vai mais alto chama mais a atenção das mulheres.

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Em seguida, eles mostraram pra gente como fazem fogo usando madeira (um bonito objeto de madeira lapidado pelos homens) e galhos. Parecia cena de filme, aquele fogo na palha, aquelas cores.

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Aí entramos na Vila mesmo. Quando eu digo Vila, estou me referindo a um vilarejo circular cercado por troncos e galhos que protegem a comunidade dos animais selvagens. As casas são de barro, folhas e galhos construídas inteiramente pelas mulheres (os homens não podem construir), as funções de gêneros são super rígidas. Homem faz isso, mulher faz aquilo.

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No meio da Vila o cercado para o pasto pra dormir. É uma relação homem-natureza super intensa, na verdade, é uma relação homem-gado em que um depende do outro pra sobreviver. O gado por ser domesticado desde sempre precisa ser guiado e os Maasais tem no gado seu ganha-pão, seu alimento e sentido de viver. Maasais se alimentam de leite, carne e sangue de vaca. Eles fazem micro-cortes no pescoço das vacas, retiram sangue e misturam com o leite, como uma sopa. Uma vez por mês eles matam uma vaca para alimentar a tribo toda. Como sempre estão em contato com sangue (até porque muitos são guerreiros) muitas moscas os rodeiam e alguns deles têm cicatrizes no rosto feitas quando crianças pra que elas escolhessem o rosto ao invés das sopas enquanto eles bebiam. É muito interessante ver como mesmo numa situação que a gente julga tão primitiva, se encontra uma saída pra tudo, esse é um jeito de manter a comida das crianças desintoxicada.

Entramos nas casas escuras de barro, iluminadas apenas por frestas de luz. “Cama” no chão feita de barro e cobertor Maasai, nada mais.

Em seguida as mulheres, que são responsáveis por gerar dinheiro através da agricultura e artesanato de bijuterias, cantaram sua música e nos enfeitaram com suas artes maravilhosas. Na África, as mulheres representam 80% da economia de artesanatos étnicos, elas são pobres economicamente mas ricas em capital cultural.

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O dinheiro das coisas que a gente compra na Vila voltam pra investir em seu próprio sustento, seus negócios, como artesanato, compra de gado e agricultura. Não há interesse em mudar as tradições ou a forma de viver.

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Já os meninos, são nomeados guerreiros entre os 15 e 20 anos. O rito de passagem da infância ao status de guerreiro júnior é uma cerimônia de circuncisão dolorosa, realizada sem anestesia pelos anciãos. Eles devem suportar a operação em silêncio pois expressões de dor trazem desonra e ainda podem causar erros no processo. Depois disso, eles são obrigados a viver por 5 anos afastados da vila usando uma roupa preta por um período de 4-8 meses.

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Tudo isso pode parecer estranho, mas a gente sempre pode aprender com as diferenças. Começando por aprender a respeitar. Eu respeito muito os Maasais e sou muito grata por tê-los conhecido mais de perto.

Agora me vou que já está tarde por aqui. Boa noite, ou como dizem os Maasais, Lala Salama!

Jambo Zanzibar!

Um dos meus objetivos nessa viagem era conhecer o Kenya além de Nairobi. Considerando o pouco tempo que estou aqui, já consegui visitar muitos lugares bacanas que retratam um pouco a vida fora da cidade como: Lake Naivasha, Crescent Island, Sagana e Maasai Mara.

Seguindo nesse esquema, queria muito visitar as praias lindas do Kenya, mas a costa está vivendo um momento super tenso com ataques terroristas, fruto do conflito com a Somália. Eu nem arrisco falar sobre isso, porque são mais de 40 anos de história e uma quantidade de entrelinhas e contextos que são pautas de infinitos livros nas prateleiras daqui. Outro dia, vi uma palestra com o expert em Somália, Ken Menkhaus e passei uns três dias relendo minhas anotações, tentando encontrar uma forma de absorver tudo aquilo. Pra quem se interessar esse cara é um dos mais influentes nesse assunto, vale a pena ler as coisas que ele escreve. Uma das muitas conseqüências desse conflito é o gigantesco campo de refugiados que existe na fronteira entre os dois países, chamado Dadaab. Lá vivem, em situações precárias, mais de 500 mil pessoas que hoje já atingem 3 gerações – filho, pai e avô convivendo juntos. 

Bom, com a costa do Kenya comprometida, resolvemos viajar (eu e meu grupo de amigos) por 3 dias pro que apelidamos de ‘Hawaii da África’. 

Zanzibar é uma ilha mágica, que faz parte da Tanzânia. A Tanzânia fica bem embaixo do Kenya e tem uma das praias mais lindas da Africa. É tudo azul clarinho, areia clara e com temperatura de Bahia!


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Passeios de barco com pescadores locais.

Para chegar, pegamos um vôo de 1 hora de duração com a surpreendentemente ótima Kenya Airways e uma hora e meia de taxi do aeroporto até o nosso hotel em Kendwa Beach.

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Pier de Kendwa beach.

Nosso hotel na verdade parecia um resort super aconchegante e simples, como todo lugar de praia deveria ser. De frente pra varanda do nosso quarto, pés de manga, flores e macaquinhos que pulavam de galho em galho.

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No primeiro dia, tomamos sol, nadamos, provamos a cerveja local Kilimanjaro (bem melhor que a Tusker, do Kenya) e como todo turista branco, fomos assediados por vendedores de tudo quanto é coisa.

Andando na praia eu e meu quase-irmão caçula Shea, encontramos estrelas do mar lindas esperando pra serem fotografadas.

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No fim do dia, fomos fazer um passeio de barco chamado ‘Sunset cruise’ que como o nome já diz, te leva pra ver o pôr do sol batendo na água cristalina no topo de um barco à vela, bebendo cerveja gelada. Olha, eu podia morrer ali.

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No dia seguinte, fomos mergulhar perto de uma ilha próxima repleta de corais. Um lugar específico de mergulho, com os mais lindos e encantadores seres, um verdadeiro safari na água (eles chamam esse passeio de Seafari). Tinha peixe-zebra, peixe-papagaio, peixe-pedra, peixe-leão, peixe-escorpião, Doris, raias e muitos outros lindos.

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Já estava feliz da vida, até que apareceram os golfinhos. Ali é um canal de passagem de famílias de golfinhos e nadamos bem pertinho deles, tinham uns dez juntos. Tenho certeza que nunca vou esquecer desse momento que foi dedicado no meu coração pra minha amiga Maíra que assim como eu, precisa de natureza pra ser feliz. ❤

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No terceiro dia resolvemos ficar de molho na praia, só parar de deitar pra almoçar e no fim da tarde fizemos um passeio de caiaque.

Agora de volta à Nairobi, às aulas, ao trabalho, aos aprendizados e conflitos, esses tantos que me fizeram escolher o Kenya como principal destino e não a Tanzânia.

Ahsanté (dessa vez escrito do jeito que usam Zanzibar).

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Erros, fracassos e enxaquecas

No ultimo post, falei que iria escrever sobre os Maasais, mas vou deixar pro próximo porque hoje senti vontade de contar um pouco sobre o evento #FailFaire Nairobi – Mishaps. Mistakes. Migraines que aconteceu ontem aqui em Nairobi e os aprendizados que venho tendo em relação a fracassos. 

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A ideia do evento é reunir pessoas pra contarem verdadeiramente seus ‘cases de cagadas’ profissionais e como serviram de aprendizado pros próximos passos e fazer pensar por que a gente usa apenas benchmarks como fonte de inspiração.

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Na entrada, o carimbo “truth”. 

Falhar faz parte do processo de inovação e por aqui existe uma cultura de valorizar esses erros como grandes aliados. Sei que a gente sempre ouve sobre isso, como aprender com os fracassos e blábláblá, mas a verdade é que isso não faz mesmo parte do que a gente se orgulha em compartilhar. Pra isso, é preciso coragem. Tá aí o 7×1 provando o quanto um grande fracasso pode ser vergonhoso, doloroso, imperdoável. 10461621_686815981367016_12362458263069603_n

O evento  aconteceu no iHub, um centro de Inovação aqui em Nairobi organizado pelo Amani Institute (minha escola) e o Nendo, uma empresa especializada em tendências de social media no Kenya. Apesar de ter juntado muita gente interessada em Inovação Social, os 8 palestrantes eram de áreas diversas: artistas, ONGS, corporações , ativistas. Entre eles, Sanergy (já citada por aqui), Microsoft, Tatua Kenya, Sarakasi, CISP, IRC, Sitawa Namwalie, Ogutu Muraya

“You know a society doesn’t accept failure  when you freak out about preparing a presentation about failure”. Ogutu Muraya, escritor de teatro

Fomos incentivados a pensar qual a nossa percepção sobre os nossos próprios erros, o que isso significa no nosso trabalho e como vamos lidar com futuros fracassos. 

“I learned to own my failures too. Just like success is mine, failure is mine”. Sitawa Namwalie, poeta

No campo da Inovação Social, um dos meus maiores aprendizados, foi um caso que trabalhou em cima de hipóteses sobre a realidade do campo. O que parecia uma boa solução, virou uma bola de neve. Muitas vezes, um jeito simples de resolver alguma coisa, pode desencadear uma série de outros problemas sociais, afinal tudo é sistêmico nesse universo. É exatamente o caso do projeto de Karamoja que estou trabalhando na Saferworld. Qualquer “peça mexida” sem extrema cautela pode causar um efeito dominó e afetar todo sistema. Sinto medo, mas com esse mesmo medo, me sinto viva. 

Como já falei antes, uma das propostas do meu curso é trabalhar coragem e fazer a gente enfrentar nossos “demonios”, aquelas vozes desencorajadoras que ouvimos sempre que sentimos vontade fazer algo diferente. Todo dia somos obrigados a fazer algo que dê medo, algo que nos coloque numa posição de risco. Tenho tentado, inclusive esse blog é um exemplo disso, uma forma de me expor e ficar vulnerável. De dar chance pro erro e fracasso. Comecei a perceber que depois de um tempo esse sentimento se transforma e o medo de errar vira um fardo bem menos pesado se você simplesmente fizer. É como mergulhar na água gelada. Aqueles segundos entre a decisão de fazer e de não fazer…o momento de ação é quase mágico e no fim você acaba adorando.

Depois da coragem de se expor, vem a pior parte: as críticas. No Amani Insitute trabalhamos com a abordagem da professora Bené Brown, da University of Houston Graduate College of Social Work, que passou os últimos 12 anos estudando vulnerabilidade, coragem e vergonha. 

“Vulnerability sounds like truth and feels like courage. Truth and courage aren’t always comfortable, but they’re never weakness”. Bené Brown

Ela fala sobre como ao invés de recusar críticas (ou se afundar nelas), podemos aprender a “reservar um lugar” para os críticos  na nossa platéia. Afinal, todo mundo sempre tem uma opinião sobre tudo e não é diferente com o que você apresenta pro mundo.

Screen Shot 2014-07-18 at 12.31.49 PMVale a pena ver essa apresentação que ela fez para o 99u.

Aproveito então o aniversário do Mandela hoje, pra terminar esse post com um de seus lindos ensinamentos:

Screen Shot 2014-07-18 at 9.29.29 AM

 Asanté!

Safari Maisha

Em Swahili, Safari significa ‘jornada’ e Maisha significa ‘vida’’. Antes de chegar aqui não tinha ideia do quanto essa duas palavras iam se tornar uma constante nos pensamentos do meu dia a dia…Mas, quando você está vivendo as perguntas, não tem como deitar a cabeça no travesseiro sem pensar sobre o novo ‘safari’ que sua vida está tomando.

Uma das propostas do meu curso é trabalhar crescimento e desenvolvimento pessoal trazendo a tona questões que possam ser desafios pra gente começar a realizar mudanças. Na semana passada, fizemos um módulo chamado inner journey, em que ficamos alguns dias num acampamento de aventuras em Sagana fazendo diversos exercícios relacionados a auto-conhecimento e trabalho de equipe, como rafting, por exemplo. Sem internet, porém totalmente conectados com nós mesmos e nossos modelos mentais (ps: vale a pena ler o pdf desse link), tivemos que expor nosso lado mais vulnerável, aprender a usar nosso corpo como um instrumento (além da cabeça) e tomar consciência dos medos que estão na nossa mente nos impedindo de realizar sonhos. 

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Um outro motivo de levarem a gente pra lá é a força e inspiração que a natureza (ps: vale a pena ler o pdf desse link também) pode trazer para quem se propõe a criar e realizar algo. Eu arrisco dizer que pra qualquer tipo de trabalho, não existe melhor exemplo do que a natureza. Ela é sempre um lembrete de que não estamos no controle quando confrontados com uma força maior, na nossa jornada da vida. 

Foi exatamente assim que me senti nesse final de semana no safari em Maasai Mara, a mais famosa reserva ecológica daqui. Conviver com essa grandiosidade da natureza do Kenya está sendo inesquecível. Olhando para fora do carro, também olhava pra dentro de mim, me vendo como só mais um fragmento daquela imensidão.

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Tudo começa quando a gente tenta chegar na reserva. Só aí já é uma espécie de jornada. São 7 horas de viagem saindo de Nairobi, sendo 3 hrs numa estrada de terra super chata. Ficamos alojados num acampamento incrível, diferente de qualquer experiência que eu já tive no Kenya (e em muito lugar na vida, pra ser sincera). São o que eles chamam de “tendas de luxo”, por ali é tudo assim mesmo. Mas não reclamo não, porque fui excepcionalmente bem tratada, recomendo esse lugar para todos que tiverem intenção de conhecer o Mara (amo chamar de Mara <3). Eles tem também passeios de balão por cima do safari, que imagino ser uma coisa linda de morrer.

Tivemos 3 dias pra aproveitar o safari e foi tudo incrível. Normalmente, no Kenya, eu sempre passo por algum perrengue antes de acontecer alguma coisa boa (é a mais pura lei da causa e efeito), mas esses 3 dias foram maravilhosos, beirando a perfeição. 

Começamos na sexta-feira vendo uma paisagem de deixar qualquer pessoa extasiada….Muitos elefantes, girafas, leões, gnus, zebras, Pumbas, gazelas e muitos outros bichos. 

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Mufasa tirando um cochilo. 

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Rinosceronte-negro, espécie ameaçada de extinção nos próximos 2 anos. 

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Almoço vegetariano. 

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Família de hienas.

Segundo o Simon, nosso guia, julho é melhor época pra visitar a reserva porque acontecem as imigrações de gnus e zebras do Maasai Mara para o Serengeti, na Tanzânia. Eles migram atrás de pasto fresco e voltam em outubro. A ‘grande migração‘ é uma dos eventos naturais mais impressionantes: algo em torno de 1.300.000 gnus, 360.000 gazelas-de-thomson e 191.000 zebras.

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Simon, nosso guia sabe-tudo, mais que pronto pra virar professor de biologia. 

A savana é tipo o “circle of life” mesmo :), eles caçam pra comer e transitam de um lugar pro outro livremente. Nessa época, os migrantes são seguidos por predadores até a Tanzânia. Nessa migração, uma das partes mais legais é ver os gnus e as zebras atravessando o Mara River.

2014-01-31 14.51.00Eles ficam até três dias reunidos em frente ao rio, esperando todos chegarem e a decisão de um corajoso que resolve descer primeiro e então o bando todo passa a segui-lo. Ficamos cerca de 3 horas esperando, contando os minutos impacientemente querendo ir embora. Ainda bem que o Simon insistiu que a gente ficasse: de repente estava li vendo uma das coisas mais impressionantes da minha vida, eu esperaria um dia inteiro se soubesse o quanto aquilo é emocionante. Mais um aprendizado da natureza pra minha jornada: paciência pra alcançar as conquistas. No fim o que é mais suado, é sempre mais merecido. Talvez se a gente não tivesse esperado tanto, não teria o mesmo gosto. 

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No último dia, fomos visitar uma tribo Maasai, mas essa experiência fica para o próximo post porque tenho muito pra contar.

A grandiosidade do Kenya, mais do que nunca é um grande pico de inspiração no meu ‘safari maisha’, na minha jornada. Meu desejo é que todos que estão aqui lendo esse post até o fim, me dando força nesse momento tão especial, encontrem também seus gatilhos, aqueles que resignificam nossa vida e nossa direção. 

“Tantas pessoas vivem em circunstâncias infelizes e ainda assim não tomam a iniciativa de mudar suas situações por estarem condicionadas a uma vida de segurança, conformidade e conservadorismo. Todos esses elementos podem dar a ideia de paz de espírito, mas, na realidade, nada é mais nocivo para o espírito aventureiro de um homem do que um futuro seguro”. Jon Krakauer, Into the Wild.

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