Asante Kenya

Chegou ao fim o Kenya. Nesta quarta-feira retornei ao Brasil querendo evitar despedidas. Registrar aqui no blog era registrar pra mim mesma o fim de uma fase que clichezisticamente mudou a minha forma de ver a vida.

O  Kenya me ensinou a ter um coração maior. Digo maior porque uma parte dele ainda está lá, atravessando o oceano. Está lá no orfanato das meninas com HIV abusadas pelos membros de suas próprias famílias. Na casas dos artesãos da favela de Kibera, escassa em infra-estrutura, mas rica em talento artístico e valores coletivos. No África Yoga Project, que me trouxe uma nova perspectiva sobre o poder do Yoga. Na Esther, vendedora de frutas, e tantos outros prestadores de serviço que sempre me agradeciam três vezes por ter feito uma compra. Nas viúvas das comunidades rurais do Kenya e na Roseline, que me ensinou que as nossas piores experiências de vida podem ser usadas pra transformar positivamente a vida de outras pessoas. Meu coração está lá em Zanzibar, o paraíso que me deu paz, descanso e plenitude. Na Vila Maasai, que me ensinou que a natureza dá tudo o que a gente precisa de verdade. E também no Maasai Mara, que me fez entender como sou apenas mais um fragmento de sua imensidão.

A cada momento doloroso no Kenya, uma coisa maravilhosa. E assim se foi minha dinâmica de dois meses, um vai e vem de causa e efeito. De viver cada sentimento da forma que eles merecem ser vividos. Isso inclui raiva, inconformismo e frustração. Mas que com a ajuda do Amani Institute, todos eles foram canalizados pra uma outra energia: a energia da mudança. Quantas vezes eu ouvi ali: se você quer mudar o mundo, comece mudando você mesmo.

“Muitas pessoas pequenas, em muitos lugares pequenos,  fazendo coisas pequenas, mudarão a face da terra”.

Provérbio africano

Posso dizer que avancei belas casas na terapia. Nesse encontro do que sou eu hoje e amanhã. Meu coração segue um pouco maior e mais humano, feliz e certa das coisas que eu não quero mais. O que quero já é outra historia, próximos capítulos. Tenho a vida toda pra eles. E esse blog também. Não quero dizer tchau. Quero contar esses capítulos. Como o Kenya vai influenciar essas próximas páginas. Como vou aplicar todos esses aprendizados no meu caminho daqui pra frente, no meu safari maisha.

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Ao Kenya eu agradeço por me dar tanto e pedir tão pouco. Por clarear meus valores, minhas crenças e a minha fé de que nada é impossível.

“No momento em que nos comprometemos, a providência divina também se põe em movimento. Todo um fluir de acontecimentos surge ao nosso favor. Como resultado da atitude, seguem todas as formas imprevistas de coincidências, encontros e ajuda, que nenhum ser humano jamais poderia ter sonhado encontrar. Qualquer coisa que você possa fazer ou sonhar, você pode começar. A coragem contém em si mesma, o poder, o gênio e a magia.” 

Goethe

Asante sana, Kenya, muito obrigada.

E até a breve volta!

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Modelo de negócio e vida

Nessas últimas semanas, tivemos um modelo do curso chamado “Creating and managing a social venture”, em que estudamos toda logística e estrutura financeira de um negócio social. Entre muitas coisas, tivemos que desenvolver vários Modelos de negócio. Pra quem não tem familiaridade com esse assunto, um modelo de negócio serve pra desenhar o racional por trás de uma empresa e ter clareza sobre como ela cria e entrega valor. Além disso, ajuda a entender coisas que precisam estar muito claras na cabeça de um empreendedor, mas que nem sempre estão. Por exemplo, através do Canvas (essa tela) você pode visualiza toda dinâmica da sua empresa: como você capta dinheiro, como você entrega valor pra pessoas além do produto/serviço, quais os canais de distribuição que você usa,  os custos que você tem.

Na Amani, seguimos o modelo do livro Business Model Generation. Existem outros como, por exemplo, o Lean Start Up  e o Blue Ocean Strategy, por exemplo. Temos esse livro em casa, mas confesso que apesar da linguagem super simples e didática, nunca ficou muito claro pra mim como fazer isso. 

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Esse video ajuda a entender melhor.

Bom, além da teoria das aulas e milhares tentativas de criar nossos próprios modelos, também fizemos um trabalho de consultoria do modelo de negócio de duas organizações. Um delas é a startup e-limo, que desenvolve conteúdo educativo para crianças de escolas públicas através de tablets. A outra é minha grande, gigante, enorme inspiração: a ONG Africa Yoga Project.  

O Africa Yoga Project é uma ONG que capacita professores de Yoga. Muitos deles, antes de ser professores, eram bandidos ou tinham relação com drogas. Inicialmente, o projeto nasceu para dar suporte a saúde física, mental e emocional à pessoas nas favelas do Kenya através do Yôga. Mas acabou virando um grande centro que forma e capacita instrutores, que normalmente não tinham emprego e vinham do crime. Seguiu crescendo pra outras formas de expressão artística e hoje é uma plataforma gigante com uma média de 200 mil pessoas impactadas.

Eu sempre considerei como modelo sustentável, um business que resultasse em impacto social. O que mais me inspirou no Africa Yoga Project, foi ver como eles fizeram o oposto: transformaram um projeto social num fantástico modelo de negócio. Eles tem diversas formas de captar recursos, como por exemplo, um fellowship de 2 semanas em que estudantes estrangeiros pagam cerca de 10 mil solares pra participar. Ou o programa de mentoria em que pessoas com determinados skills orientam um professor recém-formado via skype call semanais. As pessoas não só pagam pra ensinar como pagam pela formação do professor. Eles também cobram pelas aulas semanais (um preço super acessível). Entre outras formas de captação, o Modelo de negócio do AYP resignifica o conceito de ONG dependente apenas de doações. 

photoPaiige, co-fundadora do Africa Yoga Project explicando pra gente seu Modelo de negócio.

Outra coisa que me inspirou muito foi entender como os fundadores foram capazes de adaptar o Yoga pra aquela realidade. Eu nunca vi ou pratiquei Yoga com uma mentalidade coletiva, por exemplo. Sempre vi Yoga como um momento íntimo e reflexivo e o AYP realmente abriu minha cabeça. Lá, eles conseguem fazer de cada ásana,  um trabalho de equipe, cada vitória é comemorada e todo tipo de pessoa é incluída. Quando digo incluída, realmente estou me referindo à inclusão social. No Shine Center, onde rolam as aulas, você encontra professores e alunos com os mais diversos tipos de deficiência. Pessoas com deficiência auditiva, pessoas mudas, albinas, cegas, etc. Cada um encontra seu propósito e seu papel no mundo. Algumas mulheres cegas nascidas na favelas, por exemplo, se tornam massagistas. Eu fiz uma massagem de chorar no cantinho com uma senhora cega esses dias. Professores mudos também se comunicam perfeitamente nas aulas de yoga sem precisar dizer uma palavra.

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Cadeiras que iam pro lixo voltam à vida com as lindas kangas africanas. Feitas por crianças e pessoas com deficiência nos workshops de auto-expressão. 

Desde que cheguei aqui, tenho feito aulas em grupo com o professor Patrick e seu aprendiz, David. Ambos são professores capacitados pelo Africa Yoga Project. O Patrick fez a gente viver o Yoga muito além do Yoga. Durante a aula, ele faz a gente se questionar sobre padrões estabelecidos, quebras de paradigma.

“How you do anything, is how you do everything”. 

Patrick

Bem diferente das silenciosas e meditativas aulas de Yoga que já tive contato, posso dizer que ele me inspirou a ter coragem como um todo, não só no Yoga.

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Capacitado pelo AYP, Patrick (na foto à esquerda) foi nosso professor de Yoga nos últimos 2 mese e David (à direita) seu aprendiza. 

Muito mais que um belo Modelo de Negócio, o Africa Yoga Project trouxe uma nova perspectiva pra minha vida e pro meu futuro. Chegando ao fim do meu curso, posso dizer que fui extremamente feliz em conviver de perto com esse projeto e todas as suas maravilhas. Muita inspiração e respiração. 

Namasté!