Nairobi e Inovação Social

Jambo amigos.

Antes de começar a contar sobre o curso, acho fundamental falar que Nairobi é hoje um dos mais importantes pólos de empreendedorismo social no mundo. O próprio bairro que estamos morando, estudando e trabalhando é um bairro que abriga a maior parte das iniciativas do terceiro setor. 

Todo mundo fala sobre como a cidade evoluiu nos últimos anos e o que mais me chamou atenção aqui é o contraste entre a cultura de inovação e a falta de estrutura, convivendo em perfeita naturalidade. Você anda numa rua de lama e passa por um Centro de Inovação, por exemplo.

É interessante também ver que o empreendedorismo acontece de um jeito muito orgânico, faz parte da cultura. Andando na rua você vê vários vendedores informais dos mais diversos produtos: frutas, flores, móveis, artesanato…Essa semana no curso, tivemos um módulo de 3 dias chamado Growth in Social Innovation e recebemos um diretor da Ashoka*, que contou que 90% dos trabalhadores no Kenya são empreendedores e apenas 10% são empregados. É um empreendedorismo baseado muito mais na necessidade do que em oportunidades. Isso tem me feito pensar muito sobre o conceito de oportunidade.

Também recebemos essa semana o fantástico Meno Van Dijk, co-fundador da Thnk, uma escola de Amsterdan de Liderança Criativa. Entre muitas coisas legais, ele falou sobre a diferença entre ‘challenges’ e ‘opportunities’.  No campo da Inovação Social pelo menos, é fácil perceber que não há muita clareza sobre esses dois conceitos. Até porque muito da “nobreza” da área vem de focar nos desafios e problemas, quando na verdade poderíamos estar procurando as forças que já existem na situação e usa-las pra evoluir os contextos.

“That’s the problem of being overwhelmed by the challenges. Challenges doesn’t lead to opportunity, they are very different”.   

Meno Van Dijk

  

Nesse módulo do curso nos juntamos aos outros 25 estudantes de MBA, que já estavam aqui e visitamos o Research Lab da IBM. Ele se propõe a desenvolver soluções nas áreas: saúde, energia renovável, education e wasting management, utilizando tecnologia, mais especificamente a coleta de dados (big data), como ferramenta para desenvolver serviços que tragam evoluções sociais. Já tinha ouvido falar desse projeto, que acontece desse jeito apenas em Nairobi (como falei, o hub da Inovação Social no mundo). Apesar de ser uma proposta muito interessante, esse foi um exemplo perfeito da confusão entre esse dois conceitos. O Meno ajudou toda classe a refletir sobre isso e discutimos em grupo como isso se aplicaria nos projetos de cada aluno. 

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O lab também trouxe a perspectiva sobre uma tendência que já está acontecendo no universo da inovação social: uma elitizacao dos pensadores e desenvolvedores de soluções.  Todos os participantes do programa eram PHD em alguma coisa e com histórico acadêmico e profissional tão idealizados que jamais um “ïnovador por necessidade” poderia alcançar. Recebemos um Diretor da Acumen**, que falou sobre essa tendência e como isso afeta as relações dos moradores locais. Eles chamam de isso Gentrification. Não há uma tradução em português, mas se trata do fenômeno que afeta uma região ou bairro pela alteração das dinâmicas do local, tal como novos pontos comerciais ou construção de novos edifícios. Há uma valorização da região mas que afeta a população de baixa renda local, pois há um aumento de custos de bens e serviços, dificultando a permanência de antigos moradores com renda insuficiente pra se manterem no local. Algumas regiões de Nairobi estão começando a sentir esse impacto. O meu bairro é um exemplo disso.

“Nairobi becomes a hub for social enterpreeneurs and a hub for new ideas. But isn’t this affecting locals?”. Simon Stumpf

Além disso, começa também a se estabelecer globalmente um “merge” entre poder público, iniciativas privadas e cidadãos que passam a desenvolver suas próprias ideias seja por oportunidade ou necessidade. No Brasil, mais do que nunca, estamos vendo isso acontecer. Projetos como o Meu Rio, Conexão Cultural, Coletivo Rua, entre outros, trazem um pouco dessa iniciativa do cidadão se aliando ao poder publico e até privado para realizar mudanças de impacto social.

Entre reflexões como essas e apenas o início de muuuitas leituras, comecei também a trabalhar na Safer World, que é uma organização internacional independente que trabalha com resolução de conflitos e redução de violência. Vamos trabalhar em um projeto de desarmamento e resolução de conflito em Karamoja, fronteira de Uganda e o Kenya. Ainda não tenho muito pra contar sobre isso, pois ainda estou tentando entender e me aprofundar no assunto.

Pra não dizer que estive totalmente ausente da Copa e do futebol, assistimos o jogo com com alguns alunos do MBA que moram no nosso condomínio e até fizemos um jantar indiano pra comemorar a primeira semana em Nairobi. 

1980-01-01 00.05.27

Até o próximo post. Asante!

*Ashoka é uma organização global (uma das maiores) que identifica e investe em líderes/empreendedores sociais com capacidade de gerar transformações.

**Acumen é uma organizacão sem fins lucrativos que levanta fundos pra investir em ideias, líderes e empresas que geram impacto social.

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2 respostas em “Nairobi e Inovação Social

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